domingo, 2 de agosto de 2009

POSSÍVEIS CAUSAS DA PANDEMIA


PERGUNTAS NECESSÁRIAS
JAIME LEITÃO

Nesse momento em que o reinício do ano letivo foi adiado em praticamente todas as escolas estaduais, municipais e particulares do Estado de São Paulo, até o dia 17 de agosto, para evitar um alastramento incontrolável da gripe suína, é hora de levantar algumas questões.
A primeira delas é: -De onde surgiu essa pandemia que tira professores e alunos das salas de aula? Em trinta anos de carreira, nunca vi algo semelhante. Uma resposta surge
no artigo do escritor e jornalista francês Ignacio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique. No seu texto publicado no início deste mês, intitulado “ A grande ameaça A – Os culpados pela gripe suína”, ele afirma com todas as letras: “Não se trata de uma maldição do céu nem de um azar ditado pelo destino. A epidemia de gripe A (H1N1) surgida no México tem responsáveis concretos: o primeiro nome próprio é o da empresa norte-americana Smithfiels Foods Inc., a mais importante produtora de carne suína do mundo. Várias investigações apontam para os gigantescos criadouros que essa empresa transnacional possui no pequeno povoado mexicano de La Gloria- cujas condições de higiene e saneamento são espantosas- como a origem do flagelo.”
No seu artigo, há um ponto importante a ser ressaltado. A expansão gigantesca da produção de porcos em condições precárias não seria possível na matriz, já que nos Estados Unidos as leis são muito rígidas. Então, aproveitando-se de leis mais frouxas no México, a empresa se estabeleceu lá e se expandiu de forma assombrosa.
Segundo autoridades de saúde, as condições de higiene precárias, além da grande quantidade de porcos em ambiente mínimo, com pouca ventilação e iluminação permanente, representaram fatores desencadeadores da epidemia. Fora isso,
a utilização de antibióticos, injeções de hormônio e vacinas teriam tornado o vírus ainda mais resistente. Foi verificada pelas autoridades sanitárias a poluição dos rios e do meio ambiente, com destroços de porcos boiando nos seus leitos e outros sinais claros de falta de cuidado com a higiene.
Ainda não há respostas definitivas. Agora, o que se espera das nossas autoridades é que tomem providências para evitar que a gripe se propague e pegue a maior parte da população. E,se isso ocorrer, que as cidades se estruturem rapidamente, em consonância com o governo federal, para medicar os infectados de maneira correta, evitando um número maior de mortes.
Só que é também fundamental mudar urgentemente a forma de criar porcos, frangos e outros animais. As grandes corporações mandam no mundo e a humanidade se torna refém de epidemias que poderiam ser evitadas se cada país tomasse conta de seu território e impedisse que empresas se instalassem lá sem que sejam investigados os impactos ambientais e humanos desses empreendimentos. O lucro para poucos costuma ser nocivo para muitos.

A ERA DAS PANDEMIAS

Fonte: Folha de São Paulo
1-8-2009
DRAUZIO VARELLA

A gripe que não tem fim

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Estamos vivendo uma era de pandemias que se iniciou em 1918, com a gripe espanhola
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O VÍRUS H1N1 causador da gripe atual anda à espreita da humanidade há mais de 90 anos. Estamos vivendo uma era de pandemias que se iniciou em 1918, com a gripe espanhola. Naquele ano surgiu um novo vírus -mais tarde classificado como H1N1- com seus oito genes arranjados num formato que o sistema imunológico humano desconhecia. Pagamos caro pelo desconhecimento: 40 a 50 milhões de casos fatais.
É quase certo que esse vírus tenha se originado nas aves e migrado para a espécie humana, quando o acaso agrupou seus oito genes num arranjo tal que a estrutura resultante adquiriu a capacidade de transmitir-se de uma pessoa para outra.
À medida que a gripe espanhola se disseminava pelo mundo, trabalhadores rurais transmitiram o vírus para os porcos. Desde então, os H1N1 das gripes suína e humana têm sofrido mutações, arranjos e rearranjos de seus genes, que lhes permitiram sobreviver aos ataques do sistema imunológico de seus hospedeiros, sejam porcos ou humanos.
Como na natureza o vírus influenza A não infecta apenas porcos e homens, mas principalmente as aves, as possibilidades de novas mutações e de arranjos genéticos se ampliam de maneira descomunal, em virtude das dimensões do reservatório mundial representado pelas aves domésticas e selvagens.
Acostumados a atacar as mucosas que revestem o trato digestivo de milhares de espécies de aves, algumas das quais infectadas ao mesmo tempo por diferentes vírus influenza que trocam fragmentos genéticos uns com os outros, é inevitável que surjam partículas virais com habilidade para sobreviver em hospedeiros de outras espécies.
Em 1947, a vacina contra a gripe sazonal daquele ano não protegeu contra a doença. A ausência de atividade ocorreu porque o H1N1 que se disseminou depois da Segunda Guerra apresentava variações em sua estrutura molecular que o tornavam muito diverso dos que circularam antes da guerra.
Como por encanto, o influenza A (H1N1) desapareceu do reservatório humano, em 1957. Foi desalojado por um vírus resultante da recombinação de cinco genes do mesmo H1N1 da linhagem de 1918, com outros três genes de origem aviária. As partículas virais resultantes, batizadas de H2N2, provocaram a pandemia de gripe asiática, causadora de cerca de 1,5 milhão de mortes.
Em 1968, novas combinações genéticas deram origem ao H3N2, responsável pela terceira pandemia do século 20: a gripe Hong Kong, que provocou quase 1 milhão de óbitos.
O H1N1 ressurgiu das cinzas apenas em novembro de 1977, causando epidemias de gripe de pouca gravidade na antiga União Soviética, em Hong Kong e no nordeste da China. Do ponto de vista genético, o vírus guardava relação com o H1N1 que causou gripes sazonais em 1950.
Os virologistas admitem que essa reemergência aconteceu graças à liberação acidental de uma amostra do vírus H1N1 isolado na Escandinávia em 1950, e armazenado em laboratório. Está demonstrado que vírus influenza A (H1N1) circulam entre porcos norte-americanos desde os anos 1930, mas não haviam sido isolados em suínos europeus até 1976, quando chegou à Itália um carregamento de porcos americanos.
Em seguida, patos selvagens introduziram entre os porcos europeus um novo vírus H1N1. Em 1979, apenas três anos depois da importação, a nova cepa de origem aviária se tornou predominante na Europa. Acontecimentos semelhantes ocorreram na China.
Em 1998, foi identificado pela primeira vez em porcos norte-americanos um novo H1N1, com genes resultantes de um triplo arranjo genético: cinco fragmentos de seus genes vinham da gripe suína norte-americana clássica, dois da gripe das aves e um da gripe humana. Entre 2005 e 2009, sugiram pelo menos 11 casos de gripe causada por esse vírus; quase todos entre pessoas que tiveram contato direto com porcos.
Em abril de 2009, no final da estação de gripe sazonal do hemisfério Norte, apareceram os primeiros casos da pandemia de H1N1 que agora chega ao Brasil. O agente é resultante de um rearranjo que envolveu seis genes do vírus suíno de 1998 (formado pelo triplo arranjo genético porcos, aves e humanos) e dois genes de vírus suíno originados na Eurásia. É a quarta geração de descendentes do vírus que causou a gripe espanhola. Felizmente, muito menos agressivo do que seus ancestrais.

Comentário: O texto de Drauzio Varella faz uma excelente contextualização histórica da gripe suína. Espero que ele tenha razão quando conclui afirmando que atual geração de descendentes do vírus é muito menos agressiva do que os seus ancestrais.
Jaime Leitão

A MORTE DA ESTUDANTE BRASILEIRA

Fonte: Folha de São Paulo
Domingo, 02 de agosto de 2009

Estudante brasileira que morreu durante voo retornava de viagem a Disney
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MARINA NOVAES
da Folha Online

A Polícia Civil de São Paulo investiga a morte de uma estudante brasileira de 15 anos que morreu na madrugada deste domingo durante um voo com destino ao aeroporto de Guarulhos (Grande SP). De acordo com a companhia de viagens Tia Augusta Turismo, a adolescente voltava de uma excursão ao parque de diversões da Disney, em Orlando (Estados Unidos), e apresentou sintomas de gripe ainda no país.

Durante a excursão, a estudante foi encaminhada a um hospital nos Estados Unidos. No centro médico, ela foi submetida a um exame para diagnosticar se estava com gripe suína --a gripe A (H1N1)--, cujo resultado foi negativo.

"Ela foi liberada pelos médicos do hospital para continuar a excursão, e foi liberada para viajar de avião inclusive. Eu acredito que se houvesse alguma coisa grave, as autoridades americanas não liberariam [o embarque da garota] de maneira alguma", afirmou Filipe Fortunato, diretor executivo da agência de viagens, à Folha Online.

A Polícia Civil informou que irá pedir os exames feitos nos Estados Unidos à agência de viagens que teriam descartado a doença, e que serão feitos exames no corpo verificar se ela estava, ou não, com gripe suína.

Na bagagem da estudante, a polícia teria encontrado remédios para gripe, entre eles o Tamiflu, medicamento utilizado no tratamento da gripe suína.

De acordo com a Copa Airlines, ela chegou a ser socorrida por dois médicos que estavam na aeronave --da Copa Airlines--, mas morreu durante o voo.

A família, que aguardava a chegada da estudante no aeroporto, está em estado de choque. O corpo da brasileira foi encaminhado ao IML (Instituto Médico Legal) de Guarulhos.

Segundo a Copa Airlines, ela foi recebida por uma equipe médica do aeroporto, que constatou que a adolescente estava morta. "Através de uma certificação emitida pelo Posto Médico do Aeroporto Internacional de Guarulhos, a empresa aérea foi notificada do falecimento da passageira. A Copa Airlines lamenta profundamente o fato e se encontra, neste momento, assistindo aos familiares da passageira e trabalhando em conjunto com as autoridades locais", informou.

Com LEILA CORREIA, colaboração para Folha Online

Comentário de Jaime Leitão: Há um mistério a ser desvendado. A estudante morreu de gripe suína? E se o motivo foi esse, por que a deixaram embarcar nos Estados Unidos rumo ao Brasil? Se o exame deu negativo, como saiu na notícia, por que na sua bagagem foi encontrada uma cartela do antivirótico Tamiflu e outros remédios para gripe?

VELOCIDADES OPOSTAS

Fonte: Folha de São Paulo
São Paulo, sexta-feira, 31 de julho de 2009


TENDÊNCIAS/DEBATES

A era das pandemias e a desigualdade
SUELI DALLARI e DEISY VENTURA


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Tratar essa pandemia gripal como espetáculo pontual é um equívoco. As pandemias vieram para ficar e suscitam dois debates estruturais
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O MUNDO está diante das primeiras "pestes globalizadas", cuja velocidade de contágio, sem precedentes, é inversamente proporcional à lentidão da política e do direito.
A aceleração do trânsito de pessoas e de mercadorias reduz os intervalos entre os fenômenos patológicos de grande extensão em número de casos graves e de países atingidos, ditos pandemias. Assim, tratar a pandemia gripal em curso como um espetáculo pontual é um grande equívoco.
As pandemias vieram para ficar e suscitam ao menos dois debates estruturais: as disfunções dos sistemas de saúde pública dos países em desenvolvimento e a inoperância da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Na ausência de quebra de patentes de medicamentos e de vacinas, perecerá um grande número de doentes que, se tratados, poderiam ser salvos. O mundo desenvolvido terá então, deliberadamente, deixado morrer milhões de pobres.
Sob fortes pressões políticas, a OMS tem divulgado com entusiasmo doações de tratamentos e descontos aos países menos avançados na compra do oseltamivir, o famoso Tamiflu, fabricado pela Roche, até então o único tratamento eficaz contra o vírus A (H1N1). Mas essa pretensa generosidade é absolutamente insignificante diante da possível contaminação de um terço da humanidade.
A apologia do Tamiflu tem levado milhares de pessoas à compra do medicamento pela internet ou a cruzar fronteiras para obtê-lo em países vizinhos. O uso indiscriminado do medicamento deve ser combatido com vigor, tanto pela probabilidade de consumo de produto falso quanto por fazer com que rapidamente o vírus se torne resistente também ao oseltamivir, o que ocorreu em casos recentes. Ainda mais grave: as constantes mutações do vírus tornam o mundo refém da indústria de medicamentos.
A OMS deve operar para que paulatinamente os Estados assumam o leme, com todos os custos que isso implica, do investimento em pesquisa ao serviço de saúde pública.
O direito não pode ser desperdiçado: o Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio, negociado no âmbito da Organização Mundial do Comércio, criou a licença compulsória, dita quebra de patente, para, entre outros casos, os de urgência.
Ora, pode ocorrer algo mais urgente do que uma pandemia?
No entanto, quebrar a patente do Tamiflu, embora imprescindível, é apenas uma ponta do iceberg. É preciso que os Estados desenvolvam as condições para produzi-lo.
O mesmo ocorre em relação à insuficiência de kits para diagnóstico: com a progressão da pandemia, é provável que não sejamos capazes sequer de contar os mortos, ou seja, aqueles que comprovadamente foram vítimas desse vírus.
A prevenção da doença traz um problema adicional, que é a pressa: os mais nefastos efeitos da vacina contra o A (H1N1) ocorrerão nos primeiros países a generalizá-la, que serão, infelizmente, os latino-americanos, até agora os mais atingidos pela doença.
Assim, a deplorável desigualdade econômica mundial distribui também desigualmente o peso das urgências sanitárias. Os pobres portam o fardo mais pesado, eis que a pandemia gripal vem juntar-se a outras doenças endêmicas, como paludismo, tuberculose e dengue, cuja subsistência deve-se às adversas condições de trabalho e de vida, sobretudo em grandes aglomerações urbanas, não raro em condições de habitação promíscuas, numa rotina que favorece largamente a contaminação.
Caso o fenômeno se agrave, novas restrições, além do controle do Tamiflu, podem ser necessárias, a exemplo da limitação de reuniões públicas e aglomerações, que já foi adotada em países próximos, como a Argentina.
A pandemia pode trazer, ainda, a estigmatização de grupos de risco ou de estrangeiros, favorecendo a cultura da insegurança, pois o medo é tão contagioso quanto a doença.
Por tudo isso, urge revisar o papel da OMS no sistema internacional e retomar o debate sobre a criação de um verdadeiro sistema de vigilância epidemiológica no Brasil, apto a regular a eventual necessidade de restrições a direitos humanos e a organizar a gestão das pandemias com a maior transparência possível.
Caso contrário, seguirá atual o que escreveu Albert Camus, em 1947, no grande romance "A Peste": "Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E, contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas".
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SUELI DALLARI , 58, é professora titular da Faculdade de Saúde Pública da USP.

DEISY VENTURA , 41, é professora do Instituto de Relações Internacionais da USP.

Comentário de Jaime Leitão:
O artigo aborda bem a diferença de velocidade do vírus, que se propaga a jato, e a velocidade do poder público e dos órgãos de saúde, que anda a dois por hora, quando anda. Texto escrito por especialistas, que dominam o tema.

O PORQUÊ DO BLOG

A minha intenção, ao criar este blog, é colocar as últimas informações sobre a gripe A1N1, mais conhecida como gripe suína, abrindo espaço para comentários e debates. Em nenhum momento, pensei em alarmismo, mas em discutir um tema bastante atual e que não pode ser desconsiderado.